quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Marilyn X Marilyn



O mito ainda pulsa forte na mídia, na mente e nos corações dos cinéfilos e apaixonados pelo glamour de uma figura tão impregnada de magnetismo. O cinema ainda não produziu um mito capaz de derrubar Marilyn Monroe.

Assisti "Sete Dias com Marilyn" há tempos atrás e fiquei bastante curioso e desapontado ao mesmo tempo. A atuação de Michelle Williams é bastante precisa no ponto mais central no que diz respeito a personalidade de Marilyn. É incrível como uma atriz tecnicamente tão fraca, incapaz de decorar poucas linhas de texto e completamente insegura conseguia, ao mesmo tempo, soar tão natural e vívida na tela após ser filmada. Era realmente uma espécie de mágica, que o filme explora a contento retratando e revivendo as filmagens de "O Príncipe Encantado" com Laurence Olivier.

É bem verdade que o filme perde muito de sua força ao querer emplacar um romance tolo e sem muita inspiração entre Marilyn e o jovem e promissor assistente contratado pelo estúdio. Ao perder tempo com o romance, o filme enfraquece o estudo a respeito de Marilyn apesar do esforço de Williams, que constantemente nos lembra com sutileza o carisma e dualidade que Monroe tinha nas telas e também em sua vida particular.

Curiosamente logo após ter visto o filme ganhei de presente um box com três filmes da atriz e assisti "Como Agarrar um Milionário". Pude comprovar neste filme que a premissa de "Sete Dias com Marilyn" é realmente verdadeira. Tudo bem que a trama de Como Agarrar um Milionário não é lá grandes coisas, e Marilyn não chega nem a ser a protagonista. Mas quando ela está em cena, seu jeito deliciosamente atrapalhado aliado ao seu charme e beleza fazem com que você não repare em seus defeitos e sua falta de técnica, mas apenas em suas qualidades e atributos.

E por conseguir tal feito, ela foi e continua sendo um mito. Só nos resta reverenciar.

domingo, 22 de julho de 2012

Diretores que Amamos

  
Retrospectiva Pedro Almodóvar 

Da irreverência e maluquices do início dos anos 80, passando pela consolidação e reconhecimento internacional no fim dos anos 90 e seu ápice no inícios dos anos 2000; Pedro Almodóvar é um dos cineastas mais aclamados e obrigatórios do cinema mundial. Abaixo, uma pequena retrospectiva de sua carreira com minhas breves impressões a respeito dos filmes que vi do diretor.

- Pepi, Luci, Bom (1980) é seu primeiro filme lançado nos cinemas, onde o orçamento foi bancado graças a donativos e dinheiro emprestado de amigos. É um filme que denota o lado trangressor de Almodóvar, com nudez e falas abertas sobre drogas e sexo. Como história em si, é confusa e demonstra a falta de experiência do diretor. Marca o início de sua parceria com Carmen Maura.

- Labirinto de Paixões (1982) com uma história igualmente absurda e recheada de personagens polêmicos (uma ninfomaníaca, um terrorista gay); Almodóvar aqui já foi capaz de criar uma história mais coêsa, apesar de ainda um pouco confusa. Cecilia Roth e Antonio Banderas se tornariam figuras frequentes na filmografia do diretor.

- O Que eu Fiz Para Merecer Isso? (1984)  com este filme Almodóvar começa a observar a vida das mulheres, seus anseios, desejos e amizades; algo que mais tarde se tornaria sua marca registrada. Carmen Maura novamente encabeça o elenco junto com a hilária Chus Lampreave.


- A Lei do Desejo (1987) traz um Almodóvar bastante seguro e ainda mais polêmico: um romance gay e uma protagonista transexual envoltos numa trama que mistura comédia, romance e um pouco de suspense. Um roteiro certamente mais maduro do que seus antecessores.


- Mulheres a Beira de um Ataque de Nervos (1988) é seu primeiro sucesso internacional e comercial. Traz aquela pitada de frescor e ousadia de seus primeiros filmes aliados a um roteiro mais inteligente e personagens marcantes. Foi durante as filmagens deste filme que Almodóvar se desentendeu com Carmen Maura e ambos romperam a parceria.


- Ata-me (1990) uma tentativa de reprisar a aura cômica do filme anterior com pitadas de sexo e romance. Considero uma de seus filmes mais fracos.


- De Salto Alto (1991) outro filme não muito inspirado de Almodóvar, que traz ao menos um interessante embate entre Marisa Paredes e Victoria Abril.


- Kika (1993) é um dos filmes mais surreais do diretor, uma comédia despretenciosa que traz a incrível Rossy de Palma em seu melhor trabalho com o diretor. Verónica Forqué faz aqui uma variação de sua personagem de O que eu Fiz Para Merecer Isso?


- A Flor do Meu Segredo (1995) acredito que foi com este filme que Almodóvar começou a trilhar um caminho mais sério e investir mais em roteiros densos e personagens com um viés mais dramático. Marisa Paredes está brilhante como Leo, e o filme claramente traz ideias que Almodóvar viria a utilizar em seus filmes posteriores.


- Carne Trêmula (1997) foi outro filme que demonstra a mudança de estilo de Almodóvar, que abandonou aqui completamente qualquer vestígio cômico com uma história pesada e personagens depressivos.


- Tudo Sobre Minha Mãe (1999) é para muitos sua obra-prima. Fico meio em dúvida se é mesmo seu filme mais completo, mas é com certeza a grande virada de sua carreira em um filme que une tudo o que ele tem de melhor: personagens femininas marcantes, dramas e uma pitada de comédia com uma de suas personagens mais incríveis: Agrado. Oscar de filme estrangeiro.


- Fale com Ela (2002) um outro filme elogiadíssimo e que manteve o diretor no topo. Oscar de Melhor Roteiro e indicado também como Melhor Diretor, Almodóvar aqui além de mudar o foco pela primeira vez para personagens masculinos, também introduz no filme seus amigos Pina Bausch e Caetano Veloso em participações lindamente poéticas.


- Má Educação (2004) traz novamente o foco para o universo masculino. Não foi muito bem recebido por muita gente, mas inegavelmente traz uma temática corajosa e a trama com um toque de noir que não deixa de ter seu charme.


- Volver (2006) é o seu maior sucesso comercial em termos de bilheteria, marca também três retornos: novamente o foco nas mulheres, a parceria com Penélope Cruz, que aqui apresenta a melhor atuação de toda sua carreira num papel marcante e também a volta de Carmen Maura, quase 20 anos depois do desentendimento entre ambos. Por todos esses fatores, é com certeza um filme muito especial.


- Abraços Partidos (2009) mais um filme do diretor que flerta com o noir, numa trama repleta de idas e vindas. Penélope Cruz novamente dá conta do recado e o filme se mostra extremamente maduro, apesar de soar um pouco frio.


- A Pele que Habito (2011) retoma as fortes emoções dos filmes do diretor, numa trama milimetricamente construída e repleta de suspense e humor negro. Antônio Banderas volta a trabalhar com o diretor após um longo hiato de 20 anos.


 São filmes diferentes e que flertam com diversos gêneros, porém a assinatura do diretor foi se firmando ao longo dos anos, e de 1999 para cá Almodóvar têm mantido um nível artístico altíssimo. 


Em 2013 teremos "Os Amantes Passageiros", que promete retomar a pegada das comédias escrachadas do início de sua carreira. Vamos ver o que Almodóvar irá nos trazer desta vez.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Woody Allen e seu tour pela Europa



A priori não foi por vontade própria, mas sim por incentivos financeiros que Woody Allen começou seu tour pelo velho continente. A verdade é que o início dos anos 2000 foram bastante ruins para o diretor, que amargou quatro fracassos comerciais e de crítica consecutivos (O Escorpião de Jade, Dirigindo no Escuro, Igual a Tudo na Vida e Melinda e Melinda). Desgastado, em 2005 foi para Londres e filmou Match Point, que muitos consideram o ponto alto de sua fase mais atual.

Particularmente acho Match Point um filme interessante, mas o melhor da nova fase de Woody ainda estava por vir. Com o sucesso comercial e de crítica do filme, o diretor rodou todos os seus filmes posteriores com dinheiro, locações e investimento europeu (excluindo Tudo Pode dar Certo de 2009, um pequeno desvio em sua amada NY).

Além de Match Point, Woody Allen rodou na Inglaterra mais três filmes. Scoop, trouxe um Woody claramente fazendo aquele humor rasteiro que ele muitas vezes em sua filmografia utilizou, aqui com pitadas de suspense e um pouco de absurdo. Foi um sucesso apenas relativo e não agradou muito os críticos. O Sonho de Cassandra, drama familiar que traz um pouco da tônica de Interiores e do próprio Match Point, foi um fracasso absoluto de bilheteria nos EUA e não empolgou muita gente. Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos também não foi um grande sucesso, em parte porque exemplifica que apesar de rodado fora de NY, todos esses filmes rodados na Inglaterra poderiam se passar em qualquer outro lugar. O meio não influenciou a história e não trouxe elementos novos para a filmografia do diretor, que continuou fazendo o seu bom e velho mais do mesmo.

Veio então, em 2008, seu primeiro grande acerto no seu tour europeu, Vicky Cristina Barcelona. O romance com pitadas cômicas trouxe Barcelona como um elemento fundamental para a trama, que pouco lembra qualquer filme anterior do diretor. Bastante sensual e muito madura no tratamento das relações, a fita foi um sucesso e trouxe novamente os holofotes para Woody Allen após seu último grande êxito, Match Point.

Em 2011 veio então o maior sucesso comercial da carreira do diretor e possivelmente seu filme mais elogiado dos últimos 20 anos, Meia-Noite em Paris. Novamente a cidade título desempenha um papel todo fundamental na trama, que traz um humor refinado e referências a um sem número de personagens históricos da literatura, artes e cinema. Trouxe também aquela magia outrora utilizada em A Rosa Púrpura do Cairo, e rendeu o quarto Oscar na carreira de Allen, num hiato de mais de 20 anos após sua última vitória com Hannah e Suas Irmãs.

E 2012 já traz uma nova trama, "Para Roma com Amor", que visto na sequencia de Meia-Noite em Paris pode parecer um tanto quanto decepcionante, mas se apreciado sem a responsabilidade de comparações, é um belo exemplar do descompromisso e do humor popularesco do diretor combinados com a magia de Roma e um tantinho do modo de vida dos italianos.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Arrumando as Malas

Existem filmes que nos deixam com uma vontade quase incontrolável de ir conhecer os lugares retratados na tela. Relembrando alguns:

Under the Tuscan Sun Image Sob o Sol da Toscana

Ah...quem não ficar maluco de vontade de conhecer a região da Toscana na Itália após ver este filme certamente tem algum problema. A diretora Audrey Wells retrata as paisagens locais como se fossem pinturas, mar de girassóis, morretes com pequeninas estradas, praças, cultura local... Tudo em "Sob o Sol da Toscana" parece nos querer levar até lá. A trama do filme também ajuda, onde Diane Lane em seu melhor momento no cinema vive uma bela história de recomeços e paixões.


Little Manhattan Image ABC do Amor

Enquanto série de tv, "Sex and the City" com certeza é a melhor pedida para quem quer ver o que Nova York tem de melhor. Mas em termos de cinema, é a pequena e saborosa comédia "ABC do Amor" que apresenta o retrato mais cativante da cidade. Na bonitinha trama, um garoto entrando na pré-adolescência se vê apaixonado por uma coleguinha e vive as dores e sofrimentos de estar apaixonado. Manhattan transborda vida nas cenas onde o protagonista anda de patinete e vê a beleza local como parte de seu cotidiano.


L'auberge espagnole Image Albergue Espanhol

Este interessantíssimo filme além de discutir temas super atuais e globais, também é uma verdadeira vitrine para as belezas da maravilhosa Barcelona na Espanha. Além das obras estupendas de Gaudi espalhadas pela cidade, o filme também a retrata como uma cidade cosmopolita, porém cheia de particularidades e orgulhosa de sua rica cultura. É um filme que transpira energia e nos faz querer estar junto com o grupo de estudantes de vários países da europa em suas baladas, faculdades, bares ou em qualquer outro lugar em Barcelona.

The Darjeeling Limited Image Viagem a Darjeeling

Wes Anderson é um diretor no mínimo curioso e único. Talvez por conta desta sua bizarrice "Viagem a Darjeeling" retrate a Índia de forma bem pouco estereotipada, e talvez por isso a notável cultura e particularidades locais soem tão interessantes e cativantes. Na trama 3 irmãos excêntricos se reúnem após a morte do pai numa viagem de trêm pela Índia a fim de procurar a mãe, que abandonou os filhos para viver no país em prol de obras humanitárias. A paisagem não é das mais deslumbrantes, mas o filme realça a questão da cultura local de uma forma tão inteligente que chega a impressionar e nos faz querer viver esta experiência; despertando nosso espírito aventureiro

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Dois países, dois filmes e um mesmo problema

 França x EUA 

O cinema já contou algumas histórias sobre o universo escolar. Algumas retrataram alunos problemáticos e seus mestres, outros tantos filmes buscaram focar o aspecto da divisão de categorias existentes no ambiente estudantil. Nerd’s, patricinhas, esportistas, descolados... Todo mundo já teve a sua vez.

Recentemente dois filmes voltaram a trazer a escola como foco central de suas temáticas. Primeiro veio “Escritores da Liberdade” (Freedom Writers, EUA, 2007) e no ano seguinte, “Entre os Muros da Escola” (Entre les Murs, França, 2008). Dois filmes muito parecidos, e extremamente diferentes.

A estrutura básica dos filmes é praticamente a mesma: a dura relação entre um professor e sua turma, e todos presos a um sistema educacional que a cada dia se mostra mais datado e incapaz de vencer adversários como violência, intolerância e principalmente a falta de interesse dos alunos.

“Entre os Muros da Escola” segue a linha do cinema europeu ao retratar o cotidiano de uma escola em um subúrbio de Paris. O tom é quase documental, o nome dos atores são os mesmos de seus respectivos personagens. É um filme extremamente dialogado, com as falas sempre mediadas pelo professor François (o promissor François Bégaudeau, que além de ator também é roteirista e autor do livro no qual o filme se baseia), de planos longos e que tem o claro intuito de apenas retratar a questão da educação no subúrbio de uma grande cidade, que é sempre repleta de alunos imigrantes de várias etnias e nacionalidades, e assim as escolas são muito mais expostas a um sem número de problemas e dificuldades.

Para “Escritores da Liberdade” o tom documental não é o bastante. Apesar de ser baseado em fatos reais, o filme americano segue os moldes do cinema de seu país; é dinâmico, bem editado, tem uma boa dose de clichês e tem o objetivo claro e nítido de mostrar como uma pessoa, no caso a professora Erin Gruwell (muito bem defendida pela duplamente oscarizada Hillary Swank, de “Menina de Ouro”), é capaz de fazer a diferença e de causar impacto dentro de seu ambiente, tanto profissional como também social.

Basicamente temos uma estrutura muito parecida em ambos os filmes, um mestre em dificuldades, uma classe de alunos difíceis, um sistema educacional burro e emperrado. Até o livro que ambos os professores adotam como base para trabalhar literatura com os alunos é o mesmo nos dois filmes, “O Diário de Anne Frank”.

“Entre os Muros da Escola” e seu tom documental apenas retratam uma realidade nua e crua, sem interferir propriamente na questão ou propor soluções; “Escritores da Liberdade” é por sua vez um filme muito mais apaixonado e parcial, que ressalta com muita propriedade que a boa vontade, a persistência e o amor e dedicação profissional podem sim fazer a diferença. Talvez seja exatamente disto que o ensino de base precise, de mais professores dedicados, perseverantes e principalmente criativos.

De qualquer forma ambos os filmes são muito bons e possuem seus valores e particularidades a serem exploradas e apreciadas. Mas o que distingue realmente um do outro talvez seja uma questão de cultura cinematográfica. Em uma conversa com um amigo cinéfilo sobre os dois filmes, chegamos ao seguinte consenso: “no cinema americano o herói (ou heroína, no caso) sempre pode, e no cinema europeu o herói sempre tenta...”.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

O Efeito Jane



Jane Austen foi uma das primeiras escritoras femininas e viver única e exclusivamente de literatura. É considerada um nome importante na literatura mundial e um ícone inglês. Sua literatura pode não ser considerada muito rebuscada ou intelectualmente complexa, porém o retrato que ela traçou da sociedade inglesa do século XVIII e XIX foi muito inspirador para mulheres de várias gerações.

O cinema começou a também traçar um laço de amor com a obra de Austen em 1995, com "Razão e Sensibilidade", filme que fez sucesso e foi indicado a vários prêmios, tendo até ganho o Oscar de roteiro adaptado.

Após isto vieram algumas obras menores, até que 10 anos depois, em 2005, "Orgulho e Preconceito" foi um pequeno sucesso mundial e rejuvenesceu a obra de Austen para os olhos do público jovem e moderno.

A partir daí os distribuidores brasileiros começaram a sofrer do chamado "Efeito Jane". Em 2007, a obra "Reparação" do autor Ian McEwan ganhou as telas, e por ter no elenco a mesma protagonista de "Orgulho e Preconceito", "Reparação" virou "Desejo e Reparação". Pior, no ano seguinte foi lançado um filme inspirado na vida de Jane Austen, "Becaming Jane", que no Brasil, é claro, virou "Amor e Inocência". E na capinha do dvd a ganância é tanta que a distribuidora brasileira diz que o filme retrata a vida da escritora de "Orgulho e Preconceito" e "Desejo e Reparação"!?!

Neste meio tempo nos EUA também foi lançado o simpático filme "O Clube de Leitura de Jane Austen", um filme que resume um pouco este efeito que a escritora inglesa Jane Austen ainda causa em muitos leitores nos dias de hoje.


quinta-feira, 22 de abril de 2010

Cinema Nacional: eis a questão


O cinema nacional é assunto de debate desde que me entendo por gente. É um assunto extremamente polêmico e cheio de opiniões contraditórias, recheado de lembranças passadas e também passível de muito, mas muito preconceito.

O espectador "normal", aquele que não é cinéfilo e assiste filmes como forma de entretenimento e diversão, e não os enxerga como arte ou até religião, é a grande maioria do público no mundo todo. No Brasil não é diferente, para a maioria cinema é diversão e para poucos é um hobby e/ou algo muito maior que isso.

Mas essa grande maioria não se furta de falar e opinar sobre o cinema nacional. Para as pessoas que nasceram na década de 60 até a de 70 a imagem do cinema nacional ainda traz ecos das chanchadas e da nudez. Para quem já nasceu na década de 80 figura a lembrança dos filmes sobre pobreza e seca do Nordeste. E para o público mais novo, o tom é de comédia e cinebiografias, que são hoje o grande carro chefe das bilheterias nacionais.

A questão é que o grande público têm pouco interesse pelo cinema nacional como um todo. O público brasileiro ainda é muito televisivo, e só o que a TV veicula e divulga sobre o cinema nacional é que têm alguma chance de dar certo comercialmente, salvo raras excessões.

Um bom exemplo é este simpático "As Melhores Coisas do Mundo", da sempre interessante Laís Bodanzky. É um filme que começa meio devagar mais aos poucos vai te conquistando e revela facetas e propõe discussões de assuntos atuais extremamente relevantes. Bodanzky aliás como cineasta evoluiu de forma gigantesca, onde a boa vontade de seus anteriores "Bicho de Sete Cabeças" e "Chega de Saudade" compensavam a falta de técnica. Aqui, porém, a cineasta evolui e entrega um filme tecnicamente muito bom e com substância e conteúdo no roteiro e atuações.

O filme teve até uma boa distribuição, pelo menos na cidade de São Paulo foram quase 20 salas e no Brasil quase 150 exibindo. Mas a bilheteria do filme no Brasil na primeira semana foi de 50 mil pessoas. A comédia americana boboca "Caçador de Recompensas" com a mesma quantidade de salas fez mais de 100 mil espectadores. Ou seja, o público brasileiro adora falar mal do cinema nacional, mesmo sem assistir suas produções. O nome para isto é um só: preconceito.

Citei nos cartazes acima outros filmes de mais conteúdo, como "À Deriva", "Budapeste" e "Apenas o Fim". São filmes que apesar de erros e acertos têm seu valor e têm propostas interessantes, formatos diferentes, assuntos mais profundos.

Ainda acho que a produção nacional precisa de mais regularidade e investir mais em roteiros originais. Porém continuo assistindo na medida do possível as produções nacionais que vão surgindo, e vou formando minha opinião com base naquilo que eu vejo, e não daquilo que escuto ou apenas suponho.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

God Save the Queen(s)




As biografias de figuras históricas e notórias da realeza européia vêm ano a ano se constituindo quase que um gênero cinematográfico no mercado atual. Mas qual seria o motivo do crescimento deste estilo de filme, que é extremamente clássico e que confronta toda a tecnologia e a busca por inovações que o mundo vive hoje, sendo o cinema um dos grandes expoentes dessa nova onda tecnológica, vide o sucesso dos filmes em 3D.

Esta relação entre passado e futuro é extremamente complexa e cheia de possibilidades. Mas acho que resumidamente falando, as pessoas enxergam no passado, no clássico e na história de forma geral uma certa válvula de escape, uma fuga do mundo real para um mundo mais glamuroso. E logicamente também existe o aspecto teórico e histórico, onde a assimilação de coisas passadas podem ajudar no entendimento de acontecimentos presentes e futuros.




Falando especificamente destes quatro filmes em si, "Maria Antonieta" é sem dúvida o mais ousado e "moderninho" dos quatro. Sofia Copolla fez uso de elementos modernos na trilha sonora e recheou o filme com pitadas pop, porém não abriu mão dos figurinos e direção de arte impecáveis, como todo bom filme de época e de rainha deve ter. Uma pena que o roteiro em si de Maria Antonieta seja um pouco apático e não tenha a força e inteligência necessárias para concluir esta fusão entre passado e presente de forma satisfatória.


"A Duquesa" e "Elizabeth - A Era de Ouro" são filmes que se focam muito na vida amorosa de suas altezas, e tentam com este foco extrair uma radiografia da vida de mulheres que estiveram a frente de seu tempo, mas que amorosamente se mostraram frustradas e oprimidas por um mundo extremamente machista. Neste quesito, A Duquesa funciona bem; porém a continuação do bom Elizabeth de 1998 é extremamente mal construída.

Já "A Jovem Victoria" é a novidade deste ano, na minha opinião é o mais bem balanceado dos filmes sobre Rainhas e Duquesas. Emily Blunt está mais uma vez sensacional e o filme é interessante e bem informativo sem cair nas armadilhas românticas do gênero. Pode não ter a ousadia do Maria Antonieta, mas é certamente um bom filme e historicamente bastante informativo.

Curiosidades: Os quatro filmes citados foram ganhadores do Oscar de Melhor Figurino. Maria Antonieta em 2007, Elizabeth - A Era de Ouro em 2008, A Duquesa em 2009 e A Jovem Victoria em 2010.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Filmes e Poesia

Alguns filmes não são apenas diversão, como todos sabemos. Mas muitas vezes eles também conseguem transpor barreiras ou linguagens, são diferentes e únicos.

A relação entre filmes e poesia surgiu na minha cabeça, creio, pelo fato de a poesia, apesar de bela, muitas vezes ser uma leitura difícil, complexa e destituída de ritmo para leitores (como eu) acostumados com livros de ficção e com narrativa fluente.

Este também pode ser o caso de alguns filmes, e dois deles me chamaram a atenção recentemente por me provocarem este sentimento.

"Bright Star" (ou Brilho de Uma Paixão, como deve ficar o título nacional) é um filme tipicamente poético. Aliás, ele realmente o é sobre um poeta, o inglês John Keats. O filme romanceia sua vida amorosa com Fanny Brawne em seus últimos anos de vida. O projeto é conduzido por Jane Campion, sempre uma diretora interessante, e o duo de atores centrais Ben Whishaw e Abbie Cornish está magnífico. O filme esteticamente é belíssimo, lindas imagens e um profundo sentido poético podem ser observados pelo espectador. Não é, contudo, um filme fácil, já que o ritmo é lento e por vezes chega ele chega a ser declamado demais. Mas sua beleza e sensibilidade são inegáveis.

"Onde Vivem os Monstros" também considerei um filme extremamente poético. Spike Jonze conseguiu imprimir sua marca clássica de estranheza e um pouco bizarra mas não deixou o filme soar apenas excêntrico. É um belo retrato sobre a infância e a solidão de um garoto (o ótimo Max Records) que encontra num mundo imaginário uma forma de se integrar e dar sentido a sua breve, porém importante existência. O filme não é muito atrativo para crianças, mas para adultos pacientes com seu ritmo relativamente lento, é com certeza uma produção capaz de emocionar e fazer pensar.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Achados ou Perdidos

Alguns filmes não conseguem chegar ao circuito de cinema brasileiro, e são lançados diretamente em dvd. Isso acontece geralmente quando o filme é americano e ele acaba não fazendo muito sucesso comercial por lá, por mais que a crítica tenha sido favorável.

Esse pensamento, creio eu, faz parte de um círculo vicioso que se criou, de um preconceito meio bobo de que qualquer filme europeu de arte, mesmo ruim, é melhor intelectualmente que um filme americano. Hollywood produz ano a ano filmes extremamente comerciais, mas também existem filmes nos EUA produzidos com esforço e de forma independente, fora do eixo comercial.

Porém o público e os distribuidores brasileiros ainda parecem afeitos a esta idéia um tanto ultrapassada de valorizar a penas o que vem da Europa como sendo cult e cabeça, e generalizar a produção americana, tomando-a apenas por cinema comercial e diversão passageira.

Proponho aqui apresentar dois filmes americanos que talvez tenham sofrido este preconceito, não foram distribuídos nos cinemas e ganharam ainda por cima títulos infames no Brasil para serem lançados em dvd.

"Por uma Vida Melhor" foi o título dado para Away We Go, filme mais recente de Sam Mendes (Beleza Americana, Foi Apenas Um Sonho). É um misto de comédia e drama que em forma de road movie vai apresentando lugares e pessoas que o casal de protagonistas (os ótimos Jonh Krasinski e Maya Rudolph) vão conhecendo e deixando para trás, na tentativa de dar um rumo para suas vidas e encontrar o lugar ideal para se fixarem e formarem sua família.

É um filme que disserta muito sobre o peso que é na vida de qualquer um ter um lar, ser uma pessoa com um emprego, com uma vida estável. E junto com essa agonia do par central, o roteiro também vai revelando que o "normal" é algo muito relativo, já que as pessoas que ambos encontram pelo caminho podem já ter suas vidas fixadas e estabilizadas, mas são também cheias de frustrações e excentricidades.

É um filme agradável, doce e incrivelmente simpático. E com uma trilha sonora ótima.

Já "Férias Frustradas de Verão" foi o vexaminoso nome dado para Adventureland. Este é o típico filme que engana qualquer um, seja pela capa, pelo trailer, por este título boboca brasileiro e também pelo nome de Greg Motolla (de Superbad) na direção. "Superbad" era uma comédia tipicamente "American Pie" com um tanto a mais de cérebro e sentimento. Já Adventureland é mais do que uma simples comédia, é um filme nostálgico e cheio de sutilezas sobre adolescência, amor, primeiros empregos, dúvidas e tantas outras questões que nos afligem na adolescência.

Foi na minha opinião sem dúvida um dos filmes que mais gostei de ver no ano passado. O ambiente do parque em si, onde se desenrola toda a história, já proporciona esta nostalgia, pois o filme se passa no final na década de 80 e lá ainda existiam brinquedos mais pueris e singelos, e o mundo eletrônico e ultra moderno de hoje ainda faziam parte dos mais distantes sonhos.

Não querendo soar muito repetitivo, é um filme também muito agradável, doce e bastante divertido. E a trilha sonora deste também é genial.